Comecemos por desfazer um mal-entendido que faz sofrer em dobro: a ansiedade não é um defeito de fabrico. É o sistema de alarme mais antigo e mais bem-sucedido da história da vida, e a prova é estar a ler isto: os seus antepassados foram os que se sobressaltaram a tempo. O problema de quem vive com ansiedade não é ter um alarme; é ter um alarme calibrado para um mundo mais perigoso do que aquele em que vive, a disparar para emails como dispararia para predadores. O sofrimento é real; o perigo, na maioria das vezes, não é. E é exatamente nessa distância, entre um corpo em emergência e uma vida sem emergência à vista, que a ansiedade se torna tão desconcertante: a pessoa sabe que “não é nada” e treme na mesma. Saber não chega, e há uma razão fisiológica para isso.
O alarme não começa no pensamento; termina nele. A sequência real é outra: estruturas profundas do cérebro, com a amígdala em papel central, avaliam ameaça continuamente e em alta velocidade, muito antes da consciência. Quando disparam, o corpo muda primeiro: o coração acelera para bombear sangue aos músculos, a respiração sobe para o peito, os músculos preparam-se, a digestão suspende, os sentidos afinam. Só então a mente acorda para um corpo já em guerra, e faz o seu trabalho: procura uma explicação. E aqui está a armadilha: uma mente a explicar um corpo em alarme encontra sempre motivos, a saúde, o dinheiro, aquela frase ambígua de ontem. Os pensamentos catastróficos são menos a causa do estado e mais a legenda que a mente escreve por baixo dele.
Isto explica o fracasso da estratégia mais usada: discutir com os pensamentos. “Não sejas ridícula, não vai acontecer nada” é um argumento dirigido à parte errada; o alarme não fala essa língua. Explica também os sintomas que mais assustam, o coração aos saltos, o aperto no peito, a tontura, a sensação de irrealidade: são a fisiologia normal de um corpo preparado para correr, sem corrida nenhuma para dar-lhe destino. Assustar-se com eles é compreensível, e é gasolina: o alarme dispara por causa do próprio alarme, e o ciclo do pânico instala-se.
Uma nota necessária aqui: sintomas físicos intensos e novos merecem sempre avaliação médica primeiro. Não por alarmismo, mas por ordem sensata: exclui-se o corpo médico, e o que sobra trabalha-se em psicoterapia, sabendo com o que se está a lidar. As duas vias, mais uma vez, complementam-se.
Se a ansiedade é um alarme, a pergunta certa não é “porque sou assim?” mas “onde aprendeu o meu alarme a regular-se assim?”. A sensibilidade de base tem componente de temperamento, é verdade. Mas a calibração fina faz-se na história: nos ambientes imprevisíveis onde o corpo aprendeu que relaxar era arriscado; na vinculação ansiosa, onde a vigilância ao outro se tornou segunda natureza; nas experiências que ficaram por digerir e deixaram o sistema em sentinela; e nos anos de stress acumulado que, como no burnout, esqueceram o caminho de volta ao repouso. A ansiedade crónica raramente nasce do nada: nasce de um alarme que teve boas razões para se calibrar alto, e que nunca ninguém ajudou, depois, a recalibrar.
Vale a pena dizer também o que a ansiedade faz à vida quando manda nela: encolhe-a. O evitamento é a sua estratégia preferida, e funciona sempre no imediato: não vou, não digo, não tento, e o alívio chega. Só que cada evitamento confirma ao alarme que havia mesmo perigo, e o mapa do que é “seguro” encolhe um pouco mais. Muita gente chega ao consultório menos pela ansiedade e mais pela vida pequena que ela foi negociando.
Se o alarme não responde a argumentos, responde a quê? À linguagem que fala: a do corpo. A respiração é o exemplo mais claro, por uma razão anatómica elegante: é a única função do sistema autónomo que é também voluntária, uma porta entre o que controlamos e o que não. Uma expiração longa e lenta ativa o sistema de travagem do organismo, e o corpo lê essa mudança como informação de segurança, no sentido inverso ao do alarme. Não é truque de relaxamento; é usar o único teclado que o sistema aceita. O mesmo vale para o movimento, que dá destino à energia de fuga sem corrida; para a orientação sensorial, olhar, ouvir, tocar o presente, que devolve o corpo ao aqui onde o perigo não está; e para a presença regulada de outro ser humano, que é, desde o colo, o calmante mais potente que a biologia conhece.
Na abordagem somática e humanista que sigo, o trabalho com a ansiedade tem duas frentes, pela ordem certa. A primeira é dar ao corpo recursos imediatos: aprender, na prática e na sessão, a reconhecer a subida do alarme cedo, quando ainda é regulável, e a usar a respiração, o movimento e a orientação para o acompanhar para baixo. Não para nunca mais sentir ansiedade, mas para deixar de ter medo dela, que é o que desmonta o ciclo do pânico. A segunda frente é a recalibração de fundo: escutar o que o alarme protege. A ansiedade tem quase sempre uma lógica biográfica, e enquanto ela não é ouvida, o sistema insiste, com razão do ponto de vista dele. É um trabalho de dupla velocidade: alívio que se sente cedo, transformação que leva o seu tempo.
E o evitamento desfaz-se pela mesma via, ao contrário de como se fez: por doses. Cada situação evitada que volta a ser vivida, com recursos e em segurança, reescreve o mapa. A vida volta a alargar pela mesma porta por onde encolheu.
Três ideias. A ansiedade é um alarme leal a fazer bem o trabalho para que foi calibrado; a pergunta não é como calá-lo, é como recalibrá-lo. Tendo sido despistada a presença de alguma patologia, muito frequentemente os sintomas físicos assustadores são fisiologia de fuga sem fuga, não perigo. E cada pequeno evitamento desfeito vale mais do que parece: não é só aquele café, aquela chamada, aquela viagem; é o mapa inteiro a mudar.
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