Há uma pergunta que quase toda a gente enlutada faz, mais cedo ou mais tarde, e quase sempre em segredo: “isto que estou a sentir é normal?” Rir três dias depois do funeral. Não chorar no funeral. Falar em voz alta com quem partiu. Sentir alívio, e depois culpa pelo alívio. Estar bem uma semana inteira e desabar num corredor de supermercado por causa de uma marca de bolachas. A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é sim: é normal. O luto é muito maior e muito mais estranho do que a imagem pública que dele se faz, e boa parte do sofrimento adicional de quem o vive vem daí, de medir uma experiência selvagem com uma régua doméstica.
A régua mais famosa é a das “cinco fases do luto”: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação. Vale a pena repor a verdade histórica: Elisabeth Kübler-Ross descreveu-as a partir do trabalho com pessoas em fim de vida, perante a própria morte, e nunca as propôs como um percurso obrigatório e ordenado para quem fica. A cultura transformou-as em checklist, e a checklist tornou-se mais uma fonte de sofrimento: “ainda estou na raiva, devia já estar na aceitação”. O luto real não sobe escadas; tem marés. A investigação de Margaret Stroebe e Henk Schut descreve-o melhor: quem está de luto oscila, num movimento pendular, entre momentos voltados para a perda (a saudade, a dor, a memória) e momentos voltados para a vida que continua (as tarefas, o trabalho, até o riso). Essa oscilação não é inconstância nem fuga: é o próprio mecanismo saudável do luto. O mar vai e vem; é assim que trabalha.
E convém alargar a palavra: faz-se luto de pessoas, mas também de relações que terminam, de empregos, de casas, da saúde que muda, dos filhos que crescem, dos futuros que se imaginaram e não vão acontecer, tema que toquei no artigo sobre a meia-idade. Há ainda os lutos que o mundo não reconhece, a que a investigação chama luto não autorizado: o ex-companheiro, o animal, a gravidez interrompida, a pessoa que ainda está viva mas já não está lá, como na demência. Quando o mundo não valida a perda, a pessoa fica a fazer sozinha um trabalho que é, por natureza, comunitário. Se o seu luto é um destes, a primeira coisa a dizer-lhe é simples: a sua dor não precisa da autorização de ninguém para ser real.
Costuma-se pensar o luto como tristeza, mas quem o vive sabe que ele é primeiro uma experiência física: o cansaço de chumbo, o peito literalmente apertado, o sono desfeito, a memória e a concentração em baixo, o apetite trocado, a estranha sensação de andar dentro de nevoeiro. Numa leitura somática e neurocientífica, isto tem lógica profunda: a ligação a alguém não é uma ideia que temos, é uma regulação que fazemos. Quem amamos torna-se, ao longo dos anos, parte do nosso sistema de regulação: o ritmo da casa, a voz ao telefone, o corpo ao lado na cama. Quando essa pessoa falta, não perdemos só a presença; perdemos um regulador externo do nosso próprio organismo, e o corpo entra em desorientação fisiológica real enquanto reaprende a regular-se sem. O nevoeiro do luto não é fraqueza mental; é um sistema nervoso a refazer mapas que levaram anos a construir. Leva tempo porque tem de levar.
Isto também explica porque “distrair-se” e “manter-se ocupado”, os conselhos mais oferecidos, tantas vezes falham ou adiam: o trabalho do luto não é esquecer; é reorganizar. E explica o pêndulo de Stroebe e Schut: o organismo doseia a exposição à dor porque a integração faz-se por doses toleráveis, não por mergulhos.
Continuar em ligação, não “desligar”
Durante muito tempo, a cultura psicológica falou em “desinvestir” do que se perdeu, como se o objetivo fosse cortar. A investigação contemporânea sobre laços contínuos diz outra coisa, que as pessoas enlutadas sempre souberam: não se trata de desligar; trata-se de transformar a relação de presença em memória habitada. Falar com quem partiu, manter rituais, cozinhar a receita, visitar o lugar, não são sinais de luto mal feito; podem ser exatamente a forma de o fazer bem. O objetivo do luto não é “superar”, palavra que trata o amor como obstáculo; é integrar: chegar a um ponto em que a pessoa perdida tem um lugar dentro da vida, em vez de a vida inteira ser o lugar da perda. Como se costuma dizer no trabalho com o luto: a dor não encolhe tanto quanto a vida cresce à volta dela.
O luto não é doença e, na maioria dos casos, faz o seu caminho com o apoio natural de quem nos rodeia. Mas há sinais de que vale a pena procurar acompanhamento: quando, muito tempo passado, a vida continua totalmente organizada em torno da perda, sem oscilação do pêndulo; quando o luto ficou congelado porque a morte foi traumática e o horror bloqueia o acesso à saudade; quando há culpa que não cede ou assuntos por resolver que giram sem fim; ou quando a perda reabriu perdas antigas por chorar, porque os lutos, dentro de nós, dão as mãos. E sempre, sem esperar, se surgirem pensamentos de não querer continuar: aí a ajuda é para já, não para quando der.
Na abordagem somática e humanista que sigo, o acompanhamento do luto tem menos de técnica e mais de presença estruturada. O primeiro trabalho é dar ao luto um lugar onde possa acontecer sem gestão de imagem: um espaço onde não é preciso estar “melhor” para não preocupar ninguém. O corpo é companheiro central: acompanhar as ondas da dor com a respiração e a ancoragem, para que possam ser vividas sem afogar, e escutar o que o corpo carrega, porque a saudade, a raiva e a culpa alojam-se em sítios concretos, no peito, na garganta, nos ombros, e às vezes só por aí se deixam encontrar. Quando há palavras por dizer, criamos o espaço para as dizer, ainda que já não haja quem as ouça, porque o que ficou por dizer é das cargas mais pesadas do luto. E respeita-se o pêndulo: há sessões viradas para a perda e sessões viradas para a vida, e ambas são o trabalho.
Três ideias. O seu luto não está atrasado nem errado: as fases em fila indiana são um mito, e o pêndulo entre dor e vida é o próprio processo a funcionar. O corpo desorientado, o nevoeiro, o cansaço, não são fraqueza: são a fisiologia real de perder um regulador da nossa vida, e pedem tempo e gentileza. E o objetivo não é esquecer nem “superar”: é dar a quem se perdeu uma nova morada, dentro de uma vida que volta, devagar, a ser sua.
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