← Todos os artigos

Leitura: 7 minutos · 2026 · Susana Mendes

Perimenopausa, menopausa e andropausa: o corpo muda de estação

Ilustração do artigo: Perimenopausa, menopausa e andropausa: o corpo muda de estação

Há transições de vida com cerimónia: casamentos, reformas, nascimentos. E há transições sem data nem festa, que se instalam devagar e por dentro, enquanto tudo cá fora exige que se continue igual. A meia-idade hormonal, com a perimenopausa nas mulheres, ou o declínio androgénico nos homens, é talvez a mais silenciada de todas. Fala-se dela por sintomas soltos e piadas de circunstância; quase nunca pelo que realmente é: uma reorganização profunda do corpo, da identidade e, muitas vezes, das relações.

O que acontece nas mulheres: menos um fim, mais uma travessia

A menopausa é tecnicamente um dia, doze meses após a última menstruação. O que se vive, porém, é a perimenopausa: os anos anteriores, por vezes longos, em que o estrogénio e a progesterona deixam de descer em curva suave e passam a oscilar de forma errática. É esta irregularidade, mais do que a falta, que explica a estranheza da fase que é distinta para cada mulher: ciclos imprevisíveis, sono que se fragmenta, memória e libido que se alteram, calores repentinos e suores noturnos, e uma sensibilidade emocional que muitas mulheres descrevem como "não me reconheço".

E começa, muitas vezes, mais cedo do que se pensa: há mulheres a sentir os primeiros sinais desta oscilação, no sono, no humor, no ciclo, a partir dos 35 anos, ainda longe da idade “oficial” da menopausa, e a ouvir durante anos que “é do stress”, quando o corpo já começou a mudar de estação.

A neurociência recente trouxe dignidade a esta experiência. O trabalho de Lisa Mosconi mostrou que a menopausa não acontece apenas nos ovários: acontece no cérebro, que é ricamente sensível ao estrogénio e atravessa a sua própria remodelação, com efeitos transitórios na memória, na concentração e no humor, o famoso "nevoeiro mental" que tantas mulheres relatam e tantos consultórios desvalorizaram. Saber isto muda tudo: não é fraqueza, não é "cabeça", não é o início do fim. É um cérebro em recalibração, e na maioria das mulheres a nitidez regressa do outro lado.

E há o lado de dentro do lado de dentro: o que esta travessia mexe na identidade. Numa cultura que cola o valor feminino à juventude e à fertilidade, a menopausa chega carregada de significados que não são biológicos: invisibilidade, luto de papéis, contas com o tempo. Muitas mulheres descrevem, a par das perdas, algo inesperado: uma impaciência nova com o que não é essencial, uma vontade de verdade. Germaine Greer chamou-lhe a libertação possível da "mulher agradável". Não é raro que seja nesta fase que uma mulher entra pela primeira vez num consultório de psicoterapia, não porque está pior do que esteve, mas porque deixou de estar disponível para fingir que está bem.

O que acontece nos homens: a descida sem mapa

Nos homens não há um marco equivalente. A testosterona declina de forma gradual, cerca de um por cento ao ano a partir da meia-idade, e só numa parte dos homens atinge níveis com expressão clínica, o que a medicina designa por hipogonadismo de início tardio; o termo "andropausa" é, em rigor, uma simplificação. Mas a ausência de marco não significa ausência de experiência. Muitos homens atravessam nesta fase um conjunto reconhecível: energia que baixa, sono pior, corpo que muda de composição, desejo sexual em queda, irritabilidade ou um desânimo difuso que não sabem nomear.

E aqui a cultura cobra o seu preço específico: se as mulheres enfrentam o silenciamento, os homens enfrentam o interdito. Falar de cansaço, de desejo em baixa, de tristeza sem causa, colide de frente com o guião da masculinidade. O resultado é conhecido: os sintomas emocionais masculinos desta idade escondem-se atrás do trabalho excessivo, do álcool, da distância, e ficam por tratar. Também por isso importa dizer com clareza: níveis hormonais avaliam-se com análises e critérios médicos, não com suposições, e a decisão sobre terapêuticas hormonais, em homens e mulheres, pertence à conversa com o médico. O que pertence à psicoterapia é o resto, que não é pouco: o modo como esta travessia é vivida, sentida e integrada.

Quando os dois relógios se cruzam

Uma dimensão raramente falada: nos casais de longa duração, estas transições costumam chegar em simultâneo, e cada um está demasiado ocupado com a sua para reconhecer a do outro. O desejo dessincroniza-se, o sono separa quartos, a irritabilidade de um encontra a suscetibilidade do outro. Muitos conflitos conjugais desta fase não são crise da relação: são dois sistemas nervosos em remodelação a partilhar a mesma casa sem tradutor. Nomeá-lo, muitas vezes, é já metade do alívio.

Como trabalhamos isto em consultório

Na abordagem somática, humanista e informada pela neurociência que sigo, esta fase pede um trabalho em duas camadas. A primeira é corporal: reaprender a habitar um corpo que mudou as regras, com a respiração, a consciência das sensações e a regulação do sistema nervoso como ferramentas concretas, para o sono, para os picos de ativação, para a ansiedade que acompanha os calores ou a insónia. A segunda é de sentido: dar lugar aos lutos verdadeiros que surgem aqui, de imagens de si, de futuros imaginados, de papéis que terminam, e à pergunta que se abre a seguir, que é talvez a mais fértil da vida adulta: quem sou eu, agora que já não preciso de ser quem fui?

Para levar consigo

Três ideias. Primeira: o que lhe está a acontecer tem nome, tem fisiologia e tem fim; não está a enlouquecer. Segunda: o cuidado médico e o cuidado psicoterapêutico não competem; complementam-se, e merece os dois. Terceira: culturas houve, e há, em que esta idade é promoção, não despromoção. A biologia muda a estação; o significado da estação, esse, ainda é seu.

Referências

Bhasin, S., Brito, J. P., Cunningham, G. R., Hayes, F. J., Hodis, H. N., Matsumoto, A. M., Snyder, P. J., Swerdloff, R. S., Wu, F. C., & Yialamas, M. A. (2018). Testosterone therapy in men with hypogonadism: An Endocrine Society clinical practice guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 103(5), 1715–1744. https://doi.org/10.1210/jc.2018-00229

Damásio, A. (2017). A estranha ordem das coisas: A vida, os sentimentos e as culturas humanas. Temas e Debates.

Greer, G. (1991). The change: Women, ageing and the menopause. Hamish Hamilton.

Levine, P. A. (2010). In an unspoken voice: How the body releases trauma and restores goodness. North Atlantic Books.

Lowen, A. (1975). Bioenergetics. Penguin Books.

Mosconi, L. (2024). The menopause brain: New science empowers women to navigate the pivotal transition with knowledge and confidence. Avery.

Northrup, C. (2012). The wisdom of menopause: Creating physical and emotional health during the change (Rev. ed.). Bantam Books.

"The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society" Advisory Panel. (2022). The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 29(7), 767–794. https://doi.org/10.1097/GME.0000000000002028

van der Kolk, B. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.

Se este tema lhe diz respeito, posso ajudar. Sessões de Psicoterapia Somática, individuais e de casal, em Lisboa e online.

Marcar sessão