Todos os casais têm uma discussão que já não é sobre nada. Pode começar pela loiça, pelo telemóvel, pela família dele ou pelo silêncio dela, mas quem olha de perto reconhece a coreografia: os mesmos passos, as mesmas frases, o mesmo final. Um aproxima-se a exigir, o outro afasta-se a defender-se; quanto mais um insiste, mais o outro se fecha; quanto mais um se fecha, mais o outro insiste. No fim, os dois perdem, e os dois têm a certeza de que a culpa é do outro.
A esta coreografia, a terapia de casal chama padrão ou ciclo. E a primeira boa notícia deste artigo é esta: na maioria dos casais em sofrimento, o problema não é nenhuma das duas pessoas. É a dança.
A investigação sobre vinculação adulta, desenvolvida a partir de John Bowlby e aplicada aos casais por Sue Johnson, mudou a forma de entender o conflito conjugal. Por baixo das discussões sobre loiça, dinheiro ou sogros, corre quase sempre uma pergunta mais antiga e mais assustadora: posso contar contigo? Sou importante para ti? Se eu precisar, estás lá?
O protesto de quem persegue ("nunca me ouves!") é, traduzido, um pedido de ligação em pânico. A retirada de quem se fecha ("não vale a pena falar contigo") é, traduzida, uma proteção contra a sensação de falhar sempre. Nenhum dos dois está a atacar por maldade: estão os dois a defender-se, com estratégias opostas, do mesmo medo, o de perder o outro. A tragédia é que cada defesa confirma o medo do parceiro: o protesto empurra quem já foge, a fuga desespera quem já protesta.
John Gottman, que passou décadas a observar casais em laboratório, mediu algo revelador: em plena discussão, o ritmo cardíaco dos parceiros dispara. Acima de um certo limiar de ativação fisiológica, a pessoa entra em flooding, inundação: o sistema nervoso está em modo de sobrevivência e as capacidades de ouvir, ponderar e ter empatia ficam simplesmente indisponíveis. A partir daí, tudo o que se diz é dito por um corpo em alarme a outro corpo em alarme. Por isso as discussões às onze da noite nunca resolvem nada: não há ninguém "em casa" para resolver.
Gottman identificou também os quatro sinais que melhor predizem a erosão de uma relação: a crítica ao carácter ("tu és sempre assim"), o desprezo, a atitude defensiva e o muro de silêncio. O desprezo, apurou, é o mais corrosivo de todos. Reconhecê-los na própria relação não é motivo para pânico; é informação, e é por aí que o trabalho começa.
Numa leitura somática e psicodinâmica, cada pessoa chega à relação com um corpo já treinado: treinado para esperar abandono ou invasão, para ler silêncio como rejeição ou proximidade como perigo. Esses treinos vêm de longe, das primeiras relações onde se aprendeu o que é amar e ser amado, e disparam no presente sem pedir licença. É frequente um casal descobrir que a fúria dela responde menos ao atraso dele do que a uma infância de esperas, e que o fecho dele responde menos à crítica dela do que a uma casa onde errar custava caro. O parceiro carrega, sem saber, o guarda-roupa de fantasmas que não são seus.
Isto não desculpa comportamentos; explica intensidades. E abre uma porta: quando cada um reconhece o que é seu, o outro deixa de ser o inimigo e passa a ser, potencialmente, o aliado na cura.
Na abordagem que sigo, a terapia de casal tem um princípio central: o cliente não é nenhum dos dois, é a relação. Não procuramos o culpado; mapeamos a dança. Aprendemos, primeiro, a reconhecer o ciclo em tempo real, e a regulá-lo no corpo: perceber a subida da ativação antes da inundação, pausar sem abandonar, respirar antes de responder. Na sessão, o ritmo é deliberadamente mais lento do que o das discussões em casa, porque a lentidão é o que permite sentir o que está por baixo da raiva (quase sempre medo, mágoa ou solidão), e dizê-lo de forma que o outro consiga, talvez pela primeira vez, ouvir.
Com o tempo, os dois deixam de lutar um contra o outro e passam a lutar, juntos, contra o padrão. Não é o fim dos conflitos; é o fim da guerra. E há uma condição que a honestidade exige mencionar: este trabalho pede dois participantes dispostos, ainda que céticos. Quando há violência, ou quando um dos dois já saiu da relação mesmo estando fisicamente presente, o enquadramento adequado é outro, e faz parte do meu papel dizê-lo com clareza nas sessões iniciais.
Se a sua relação está presa numa dança que os magoa aos dois, três ideias: o padrão não é prova de que escolheram mal, é prova de que são humanos com histórias; ninguém sai de um ciclo destes apenas com boa vontade, porque o ciclo vive no corpo, não na intenção; e pedir ajuda cedo é radicalmente mais eficaz do que pedir tarde. Os casais esperam, em média, anos demais, e chegam à terapia a tratar não o problema, mas as cicatrizes de o terem adiado.
Boadella, D. (1987). Lifestreams: An introduction to biosynthesis. Routledge & Kegan Paul.
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Gottman, J. M., & Silver, N. (1999). The seven principles for making marriage work. Crown Publishers.
Gottman, J. M. (2011). The science of trust: Emotional attunement for couples. W. W. Norton.
Johnson, S. M. (2004). The practice of emotionally focused couple therapy: Creating connection (2nd ed.). Brunner-Routledge.
Johnson, S. (2008). Hold me tight: Seven conversations for a lifetime of love. Little, Brown.
Levine, P. A. (2010). In an unspoken voice: How the body releases trauma and restores goodness. North Atlantic Books.
Lowen, A. (1980). Fear of life. Macmillan.
Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. W. W. Norton.
Se este tema lhe diz respeito, posso ajudar. Sessões de Psicoterapia Somática, individuais e de casal, em Lisboa e online.
Marcar sessão