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Leitura: 7 minutos · 2026 · Susana Mendes

Sexualidade masculina: quando o corpo diz o que o homem não pode dizer

Ilustração do artigo: Sexualidade masculina: quando o corpo diz o que o homem não pode dizer

Há dois momentos em que muitos homens se sentem verdadeiramente sós: quando o corpo se apressa e quando o corpo se retira. A ejaculação que chega cedo demais e a ereção que se perde a meio são, provavelmente, as duas experiências sexuais mais comuns e menos faladas da vida masculina. Comuns, porque a investigação estima que muitos homens viverão pelo menos uma delas de forma persistente nalgum momento. Menos faladas, porque continuam coladas a uma equação antiga e cruel: desempenho igual a valor.

Este artigo não é sobre técnicas. É sobre compreender o que estas experiências dizem, porque raramente dizem o que o homem teme que digam.

Primeiro, o essencial: o corpo não está a falhar, está a comunicar

A resposta sexual não é uma competência que se executa; é um estado que acontece, e só acontece dentro de determinadas condições do sistema nervoso. A ereção depende do ramo parassimpático, o mesmo que governa o repouso, a digestão, a segurança sentida. A ejaculação é disparada pelo ramo simpático, o da ativação e da urgência. A matemática é desconfortável mas clarificadora: um homem em estado de alerta, com o simpático em domínio, por ansiedade, autocobrança, stress acumulado, tem o pé no acelerador da ejaculação e o travão na ereção. Exatamente o padrão de que se queixa.

Por isso é que "pensar noutra coisa" e "esforçar-se mais" falham tão sistematicamente: são estratégias de controlo, e o controlo é mais ativação simpática. O homem tenta resolver o problema com o próprio estado que o produz.

A espiral da vigilância

Quase sempre, o episódio inicial tem uma explicação banal: cansaço, álcool, um dia mau, o nervosismo de uma relação nova. O que transforma um episódio num padrão é o que acontece a seguir: o homem entra na cama já a monitorizar-se. Masters e Johnson chamaram-lhe spectatoring: sair da experiência para se observar de fora, avaliando em tempo real. A atenção, que devia estar na pele, no outro, no prazer, está ocupada a medir. E um sistema nervoso em avaliação é um sistema nervoso em ameaça.

Instala-se então a espiral: vigilância gera falha, falha gera evitamento, evitamento gera distância na relação, e a distância confirma o pior receio. Muitos homens começam a evitar não apenas o sexo, mas o afeto que poderia conduzir a ele: o abraço mais longo, o beijo demorado, tudo o que possa "criar expectativa". A parceira ou o parceiro, sem explicação, lê rejeição. E o problema de um passa a ser a solidão de dois.

É também nesta fase que muitos homens se refugiam na pornografia: um espaço sexual sem o olhar do outro, sem risco de falhar, que alivia no imediato mas treina o sistema nervoso para uma excitação sem relação, e que pode aprofundar, em silêncio, a distância que já existia.

O que o corpo carrega

Numa leitura somática, estes sintomas raramente nascem no quarto. Alexander Lowen observou como a história emocional se inscreve no corpo masculino: a pélvis que endureceu, a respiração que ficou alta e curta, a musculatura que aprendeu cedo a "aguentar". Muitos homens foram educados para uma masculinidade de contenção, onde sentir era perigoso e pedir era fraqueza; o corpo aprendeu a armadura, e a armadura não se despe por decisão no momento da intimidade. A ejaculação rápida pode ser lida como um sistema que quer despachar a exposição; a perda de ereção, como um sistema que se retira dela. Em ambos os casos, o corpo está a proteger, à sua maneira, um homem que não se sente seguro em entrega.

Wilhelm Reich, e depois Lowen, insistiram num ponto que a neurociência moderna tem vindo a sustentar por outras vias: a capacidade de prazer e a capacidade de sentir são a mesma capacidade. Não é possível anestesiar seletivamente o medo, a tristeza ou a raiva e manter intacta a vitalidade sexual. O que se congela, congela por inteiro.

Uma nota séria antes de continuar

Nem tudo é psicológico, e a honestidade exige dizê-lo: a disfunção erétil, sobretudo quando é progressiva e acontece também na masturbação e nas ereções matinais, pode ser o primeiro sinal visível de problemas vasculares, hormonais ou metabólicos. A avaliação médica não é uma alternativa à psicoterapia; é o primeiro passo responsável. Um padrão frequente, aliás, é misto: uma causa física inicial e uma espiral de ansiedade que a mantém depois de tratada. As duas dimensões merecem cuidado.

Como trabalhamos isto em consultório

Na abordagem somática e humanista que sigo, o trabalho não começa no sintoma; começa na pessoa que o transporta. Interessa-me o que o corpo daquele homem aprendeu sobre exposição, entrega e controlo, e em que outras áreas da vida esse padrão se repete, porque quase sempre se repete. Podemos trabalhar por exemplo a respiração e a consciência corporal para reconstruir a capacidade de estar presente na sensação sem fugir para a avaliação; o ritmo é gradual e os recursos vêm antes das dificuldades. Quando há uma relação, o trabalho pode passar por uma conversa aberta entre o casal sobre o tema, porque a segurança que falta raramente se reconstrói sentindo-se sozinho. E desfaz-se, com tempo, a equação desempenho-valor, substituindo-a por algo mais interessante: a intimidade como lugar de encontro, não de exame.

Os resultados nesta área são, em geral, encorajadores, precisamente porque grande parte do mecanismo que mantém o problema é aprendido, e o que foi aprendido pode ser reaprendido.

Se se reconheceu aqui

Três ideias para levar: o que lhe acontece é comum, tem lógica e tem caminho. O silêncio é o único elemento desta história que não tem nada a seu favor. E procurar ajuda, médica, psicoterapêutica ou ambas, não é admitir uma falha; é recusar que um sintoma tratável continue a decidir a sua vida íntima.

Referências

Damásio, A. (2017). A estranha ordem das coisas: A vida, os sentimentos e as culturas humanas. Temas e Debates.

Levine, P. A. (2010). In an unspoken voice: How the body releases trauma and restores goodness. North Atlantic Books.

Lowen, A. (1965). Love and orgasm. Macmillan.

Lowen, A. (1975). Bioenergetics. Penguin Books.

Masters, W. H., & Johnson, V. E. (1970). Human sexual inadequacy. Little, Brown.

McCarthy, B., & Metz, M. E. (2004). Coping with erectile dysfunction: How to regain confidence and enjoy great sex. New Harbinger Publications.

Metz, M. E., & McCarthy, B. (2003). Coping with premature ejaculation: How to overcome PE, please your partner, and have great sex. New Harbinger Publications.

Reich, W. (1942). The function of the orgasm. Orgone Institute Press.

Zilbergeld, B. (1999). The new male sexuality (Rev. ed.). Bantam Books.

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