A investigação sobre vinculação conta uma história curiosa: antes de sabermos falar, já estávamos a aprender o que é ligar-se a alguém. E essa aprendizagem tornou-se um mapa que continuamos a usar, décadas depois, em territórios completamente diferentes.
John Bowlby propôs uma ideia que era, na época, quase escandalosa: a necessidade de ligação não é um capricho infantil que se supera, é uma necessidade biológica primária, tão básica como comer. O bebé humano nasce demasiado imaturo para sobreviver sozinho; ligar-se a quem cuida é a sua primeira estratégia de sobrevivência. Mary Ainsworth demonstrou-o depois em laboratório: observando bebés separados e reunidos com as suas mães, identificou padrões distintos na forma de procurar (ou não procurar) conforto.
O ponto essencial é este: cada padrão é uma adaptação inteligente ao cuidado que existia. O bebé não escolhe um estilo; deduz, com uma precisão notável, a melhor estratégia para manter por perto o adulto concreto que tem. E dessa dedução nasce aquilo a que Bowlby chamou modelos internos: expectativas silenciosas sobre o que é a proximidade, o que acontece quando preciso, o que valho quando peço. Anos mais tarde, é com esse mesmo mapa da infância que entramos nas relações adultas, sobretudo nas amorosas.
Vinculação segura. Cresceu com cuidadores suficientemente disponíveis e previsíveis: quando precisou, alguém veio, vezes suficientes. O mapa que ficou diz: a proximidade é boa, a distância é tolerável, pedir não é perigoso. Em adulto, traduz-se numa relação relativamente pacífica com a intimidade e com a autonomia: consegue depender e consegue estar só, discute sem catastrofizar, repara depois do conflito. Não é perfeição emocional; é flexibilidade.
Vinculação ansiosa (ou preocupada). Cresceu com cuidado imprevisível: às vezes vinha, às vezes não, e a criança aprendeu que a estratégia mais eficaz era amplificar o sinal: chorar mais alto, agarrar mais forte, vigiar. O mapa diz: a ligação pode desaparecer a qualquer momento; mantém-te alerta. Em adulto, aparece como a antena permanentemente ligada ao outro: a releitura de mensagens, o desconforto intenso com o silêncio, a pergunta “estás chateado comigo?” que sai antes de ser pensada, a dificuldade em acreditar que o amor fica quando não está a ser reconfirmado. Por baixo do que os outros chamam “carência” está uma vigilância que um dia foi necessária.
Vinculação evitante. Cresceu com cuidado consistentemente distante ou desconfortável com a necessidade: quando pediu, encontrou pouco, ou encontrou incómodo. A criança fez a única coisa sensata: desligou o pedido. O mapa diz: precisar afasta os outros; conta só contigo mesmo(a). Em adulto, aparece como a autossuficiência de aço: o desconforto quando o outro se aproxima demasiado, a necessidade de “espaço” que cresce na exata proporção da intimidade, a dificuldade em nomear o que sente, a sensação de sufoco onde outros sentem aconchego. Por baixo do que os outros chamam “frieza” está uma proteção que um dia foi necessária. E um detalhe que a investigação tornou claro: o sistema de vinculação evitante não está desligado; está silenciado. O corpo continua a reagir à separação; a pessoa é que deixou de ter acesso a esse sinal.
Existe ainda um quarto padrão, desorganizado, associado a cuidado assustador ou caótico, em que aproximar e fugir se confundem. Merece um artigo próprio; fica o registo de que existe.
Primeira: estes padrões não são diagnósticos nem caixas. São tendências num contínuo, e a mesma pessoa pode funcionar de forma mais segura numa relação e mais ansiosa noutra, porque o mapa também responde a quem temos à frente. Segunda: nenhum estilo é o vilão. A pessoa com tendência ansiosa e a com tendência evitante não são o problema uma da outra, embora se encontrem com uma frequência espantosa, precisamente porque cada uma confirma o mapa da outra: quanto mais uma persegue, mais a outra se retira, e a dança de que falei no artigo sobre casais instala-se.
Numa leitura somática, a vinculação não é uma ideia que se tem; é um estado que se sente. O mapa foi desenhado antes das palavras, na linguagem que então existia: o tom de voz, o ritmo do embalo, a qualidade do toque, a expressão do rosto que se debruçava. Por isso é que ele dispara sem pedir licença à razão: o aperto no peito quando a mensagem não chega, o maxilar que endurece quando alguém se aproxima demais, não são pensamentos, são memórias do corpo. E por isso é que “já sei que o meu padrão é ansioso” raramente chega para o mudar: a compreensão é o princípio, não o fim.
A investigação sobre vinculação adulta trouxe um dos conceitos mais esperançosos da psicologia: a segurança conquistada. Pessoas que cresceram com mapas ansiosos ou evitantes podem desenvolver, em adultas, um funcionamento seguro, através de relações que contradizem, com consistência e tempo, as expectativas antigas. Uma relação amorosa suficientemente segura pode fazê-lo. Uma relação terapêutica também, e é em parte para isso que ela existe.
Na abordagem somática e humanista que sigo, o trabalho com a vinculação tem uma particularidade: a ferramenta principal é a própria relação. Não falamos apenas sobre o mapa; ele aparece na sala, entre nós, como aparece em todas as relações significativas, e é aí, ao vivo e em segurança, que pode ser visto e revisto. Trabalhamos a consciência corporal para reconhecer o padrão no momento em que dispara, o aperto, o impulso de agarrar, o impulso de sair, e para criar, gradualmente, um intervalo entre o disparo e a resposta. E fazemos, com o tempo, a experiência que faltou: pedir e receber, aproximar sem sufoco, distanciar sem abandono. O mapa não se apaga; ganha estradas novas.
Três ideias. O seu padrão foi a solução mais inteligente que uma criança encontrou para o cuidado que tinha; merece respeito, não vergonha. Conhecê-lo é o primeiro passo, mas a mudança acontece na experiência, não na explicação. E nenhum mapa é definitivo: a segurança pode ser conquistada, em qualquer idade.
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